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Racismo e Games: 6 Vezes que os Jogos “Tocaram na Ferida”

Nos últimos dias, temos vivenciado debates calorosos, manifestações e protestos sobre situações de racismo no dia a dia. O racismo é uma situação presente na humanidade há muitos anos, e esteve relacionado com diversos conflitos, até mesmo armados, na história da raça humana na Terra.

Os casos mais recentes envolvem as manifestações em reação à morte de George Floyd pela polícia dos EUA e em nosso país a mobilização de gamers, encabeçada pelo criador de conteúdo e editor Ricardo Regis, fundador do canal Nautilus, contra manifestações de cunho racista feitas pelo canal Xbox Mil Grau, que inclusive perdeu os direitos de usar a marca Xbox.

Naturalmente os jogos, como produtos culturais, por vezes abordam essa temática, seja como plot central ou simplesmente como parte da construção de mundo de um jogo. Esses jogos podem fazer uma abordagem mais realista e próxima do nosso mundo real ou podem simplesmente abordar isso em um mundo de fantasia e usando exemplos mais abstratos, mas que da mesma forma abordam diretamente essa problemática.

Pensando nisso, trouxemos uma lista de 6 jogos que abordam a temática do racismo, seja de forma direta ou indireta. Vamos conhecer os escolhidos.

The Witcher

Baseada na série de livros criada pelo polonês Andrzej Sapkowski, a franquia de jogos The Witcher traz um mundo habitado por uma grande diversidade racial. Entre os humanos, é possível encontrar uma variedade de traços físicos, que talvez seja uma influência da própria região que o autor dos livros vive, que já foi habitada por inúmeras etnias e tribos no passado. Dessa forma, o racismo em The Witcher se evidencia mais na discriminação de outras raças.

Durante a série, as diferentes raças do mundo se encontram em conflitos por territórios ou simplesmente porque um determinado governante acredita que sua raça é superior às outras. Não é incomum que elfos e anões sofram algum tipo de discriminação e a queima de bruxas é algo comum também.

O racismo fica ainda mais explícito ao olharmos para o poderoso império de Nilfgaard, que expande seu território conquistando os reinos vizinhos, que são considerados povos bárbaros e inferiores, e também consideram que os verdadeiros nilfgaardianos são aqueles nascidos no coração do império. A inspiração para Nilfgaard se assemelha bastante com o antigo Império Romano.

Naturalmente que se tratando de um autor polonês, que conhece bem os horrores da guerra em seu país, invadido pela Alemanha Nazista, podemos identificar uma certa inspiração nas ideias nazistas de uma raça ariana superior às outras.

De qualquer forma, o preconceito e o racismo são temas centrais da série The Witcher, sejam livros, jogos ou a série recentemente lançada na Netflix. O autor mostra como o racismo acaba influenciando conflitos militares e a organização da sociedade no mundo em que ele criou.

Skyrim

The Elder Scrolls é uma série de RPG/Fantasia que constantemente coloca conflitos raciais em sua construção de mundo. O continente de Tamriel é habitado por diferenças raças que intercalam em tempos de paz, guerra e parcerias.

Skyrim se passa anos após a crise do Oblivion, ocorrida no jogo anterior. Após a queda do Império, que unificou diversos reinos e raças, apesar de não ter conseguido eliminar completamente o racismo, o continente viveu conflitos entre os diferentes povos e reinos.

O conflito racial principal em Skyrim gira em torno dos Thalmor, supremacistas raciais dos Altmer, ou High Elves, e os humanos Nord. Os Thalmor acreditam que sua raça élfica é superior às demais e por isso têm direito de governar todo o continente. Após a guerra com o Império, um acordo foi selado e os elfos conseguiram banir a religião de Talos do continente, a principal divindade dos Nords.

Por outro lado, entre aqueles Nords que lutavam pela sua liberdade religiosa e independência, surgem os Stormcloaks, liderados por Ulfric Stormcloak. Os Stormcloaks, apesar de estarem em seu direito de lutar por liberdade religiosa e independência, acreditam que Skyrim pertence apenas aos Nords, e normalmente desprezam outros povos.

Além desse conflito principal, outros conflitos raciais permanecem existindo em Skyrim, mesmo que não sejam abordados diretamente como plot principal. Os Khajiit ainda são vistos como uma raça de ladrões, e se você jogar com um personagem dessa raça certamente ouvirá insultos racistas de NPC’s e de inimigos em batalha. O mesmo se aplica aos lagartos Argonian.

The Elder Scrolls mostra um mundo onde conflitos raciais e religiosos são constantes. Uma raça que discrimina outra em seu reino pode sofrer discriminação em outro reino. O jogo aborda o racismo e o preconceito como um problema universal. Até mesmo o dragão Paarthurnax, que ajudou os humanos na luta contra os dragões, sofre ódio dos Blades, que não confiam em ninguém da raça dracônica, mesmo que esse dragão tenha provado ter ido contra sua natureza para fazer o que era certo.

Ah sim, e se você matou Paarthurnax, eu não confio em você.

Xenogears

Lançado em 1998, Xenogears causou polêmica ao tratar de assuntos extremamente delicados para a época. O jogo aborda temas filosóficos e religiosos, sem economizar nas referências ao cristianismo e às escolas de pensamento ocidentais, como Freud, Jung e Nietzsche.

Em Xenogears, o racismo fica bastante evidente em duas situações específicas: a relação do reino de Kislev com os “demi-humans”, ou semi-humanos, e a relação da cidade flutuante de Solaris com todas as outras raças.

Kislev é um reino governado pelo Kaiser Sigmund, que ironicamente é um demi-human, mas com características humanas que se sobressaem e permitem que ele esconda sua origem semi-humana. Sigmund desenvolve um grande ódio pela sua própria raça e, por conta disso, consegue aprovar leis que dificultam a vida dos demi-humans em Kislev e fortalecem a discriminação da raça.

Sigmund teve um filho chamado Ricardo, que foi banido junto com sua mãe Anne enquanto Sigmund estava no front de uma guerra. O grupo responsável por banir os dois, chamado Ethos, mente para o Kaiser dizendo que os dois foram mortos. Eventualmente Ricardo, agora conhecido como Rico, desenvolve suas características de demi-human e consequentemente sofre pelas políticas criadas pelo seu próprio pai, o que cria nele um ódio profundo pelo Kaiser.

Já Solaris é uma nação fascista que vive em uma cidade flutuante, invisível aos olhos humanos da superfície. Claramente com inspiração nazifascista, a cidade é dividida em castas imutáveis, como a elite da sociedade sendo formada pelos Gazel, ou puro sangue. Os solarianos de castas inferiores vivem nas partes mais baixas da cidade e sofrem um rígido controle por meio de cartões de identificação, câmeras e drones, que identificam cidadãos “problemáticos” e os descartam.

“Como uma Gazel de primeira classe, a personagem Elly vive em uma luxuosa mansão.”

Os solarianos chamam os habitantes da superfície de lambs, ou cordeiros, e durante séculos manipularam eventos na superfície, causaram conflitos entre reinos e fizeram todo tipo de experimentos científicos com os humanos da superfície.

“As colmeias, onde vivem os ‘cidadãos’ de terceira classe, conhecidos como abelhas operárias. Aqueles que questionam Solaris ou não querem trabalhar são mortos.”

Solaris tem planos ambiciosos que envolvem experimentos científicos e até mesmo o genocídio total da raça humana que habita a superfície, e eles não medirão esforços para concretizar esses objetivos, mesmo que isso resulte na aniquilação de quem eles consideram “inferiores”.

GTA (Grand Theft Auto)

Provavelmente um dos mais óbvios da lista.Grand Theft Auto traz para o jogador uma simulação das principais cidades dos EUA, um país que até hoje sofre com tensões raciais, como visto recentemente.

Grand Theft Auto constantemente aborda conflitos raciais, guerras entre gangues de diferentes grupos étnicos, como negros, latinos, asiáticos, etc. Os conflitos entre essas gangues muitas vezes são influenciados pelas questões raciais, presentes na sociedade dos EUA.

O título também sempre trata de estereótipos racistas e de violência policial, muitas vezes em tom de ironia e sarcasmo, bem como a própria visão racista de muitos americanos. GTA é um jogo que dispensa muitos comentários sobre o assunto, se você é fã do game certamente se deparou com alguma situação racista.

Red Dead Redemption 2

Outro jogo da Rockstar que inevitavelmente toca no tema de racismo. Por se basear em momentos históricos dos EUA, é natural que em determinados momentos o jogador se depare com situações de racismo.

Por mais que o jogo se passe em estados fictícios dos EUA, algo comum nos jogos da Rockstar que evita utilizar locais reais, podemos encontrar situações reais ocorridas na história dos EUA. Uma delas é a escravidão. Mesmo com ela abolida, é possível ao jogar encontrar e libertar escravos ilegais.

Além disso, esses estados fictícios também convivem com o conflito de terras entre brancos e indígenas. Os nativos são forçados a viverem em reservas pelo governo americano do jogo e eventualmente entram em conflito com o governo e outros brancos que vivem nas redondezas.

E se você é um jogador mais atento e explorador, é bem possível que tenha se encontrado com um grupo da Ku Klux Klan se reunindo e discutindo ações racistas, ou simplesmente fazendo algum discurso de ódio. Um dos easter eggs deixados pela Rockstar nesse jogo é a possibilidade de matar os racistas da KKK sem perder pontos de honra.

Apesar de não necessariamente falar diretamente sobre racismo, inserir o racismo e conflitos raciais na construção de mundo de RDR2 se torna inevitável, já que o jogo é baseado na própria história dos EUA, que infelizmente foi construída também pelos conflitos raciais e escravidão.

Wolfenstein

A série de jogos FPS Wolfenstein, dos criadores de Doom, começou como uma grande catarse baseada em matar nazistas por diversão. Se você também ama o choro e gritos de nazistas no café da manhã, certamente você é um fã de Wolfenstein.

Agora nas mãos da Bethesda, os jogos The New Order e The New Colossus expandem um pouco mais a história de nosso herói B.J. Blazkowicz e exemplificam melhor o racismo presente na ideologia nazista bem como expõem a problemática racista que já existia nos EUA antes da Segunda Guerra Mundial.

Como sabemos, o nazismo se baseia na ideia de uma raça branca superior, os arianos, que justificou a morte de milhões de pessoas das mais diversas etnias e culturas, principalmente os judeus, mas também negros, homossexuais, ciganos, deficientes físicos, etc.

Ao analisarmos o protagonista vemos um homem branco, loiro, de olhos azuis, alto e forte. Um homem que poderia perfeitamente se encaixar em critérios arianos. Se não fosse por um detalhe: BJ é judeu. Filho de brancos poloneses, sendo sua mãe judia, BJ cresceu confortável em um EUA racista e eventualmente lutou na Segunda Guerra Mundial contra os nazistas.

Nos jogos mais novos, vemos BJ constantemente sendo elogiado por sua aparência ariana, inclusive enganando altos oficiais nazistas que se gabam por identificar um não-ariano facilmente ao olhar para ele. Isso mostra uma nuance do racismo que vai além do tom de pele, abrangendo também as origens étnicas menos visíveis.

B.J. Blazkowicz acaba se juntando à Resistência após a vitória da Alemanha Nazista, colaborando com outras minorias perseguidas pelos nazistas: negros, outros judeus, deficientes físicos, etc. É possível ver no jogo membros da Ku Klux Klan colaborando com o regime nazista nos EUA, apesar de ser visível o desprezo dos nazistas por esses americanos.

Também observamos no jogo o choque de realidade de BJ ao se dar conta que os EUA por quem ele lutou também tem uma história de segregação e racismo, mostrando como alguém como ele, apesar de não demonstrar racismo em nenhum momento de sua vida, não se deu conta do problema em seu próprio país até que ele sofresse a mesma perseguição por conta de suas origens.

Wolfenstein apesar de parecer descompromissado em mostrar questões raciais complexas, tem muito a revelar aos mais atentos. Caso queiram saber mais sobre questões racistas no jogo, deixo abaixo um vídeo muito interessante sobre o assunto.

Racismo nos Games…

Por fim, esses foram apenas alguns jogos que tratam do tema racismo, seja como uma questão direta a ser confrontada no jogo ou como parte da construção de mundo. Questões raciais são sempre muito atuais em nossa sociedade, então é natural que isso venha sendo abordado nos jogos e não imagino essa questão deixando de se tornar relevante nas produções. E vocês, conhecem algum outro jogo que trata desse tema? Compartilhe com a gente.

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Arthur Tayt-Sohn

Apreciador de bons jogos e da arte do desenvolvimento de games. Jogando desde os anos 90, passando por consoles Atari, Sega, Nintendo e Sony, hoje jogador da plataforma PC. Final Fantasy 7 é meu jogo preferido, mas amo aqueles jogos que contam histórias tão incríveis que talvez não caibam em um livro, como Xenogears e NieR:Automata. Admirador da arte de criar jogos, acredito que boas histórias e uma trilha sonora de qualidade são tão fundamentais quanto gameplay.

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